quarta-feira, maio 09, 2007

CLODOALDO LOBO - Seres Invólucros vagueiam nas cidades


Uma fotografia hiperrealista. Da grande parte da juventude contemporânea, mais capitalista do que nunca, para quem tudo se resume ao paraíso artificial das drogas, da grife dos shoppings e do sexo vendido/comprado. Cintilações cínicas é o que nos desperta a montagem “Shopping and FUcking”, escrita pelo inglês Mark Ravenhill e primorosamente dirigida por Fernando Guerreiro: repugnância, medo e... atração. Atração pelo abismo do nada.


Um grupo de jovens é posto em cena, com seus erros e até belezas interiores. Dois rapazes e uma moça, que se amam atrapalhadamente. A moça é Jussilene Santana, Lulu, um show de beleza e talento, a se entronizar definitivamente como uma atriz baiana de primeiríssima linha. A melhor no palco. Jogo de pernas e vivacidade, como se soubesse o que se passa com ela (Lulu) e ao seu redor, mas que se deixa cair nas malhas do insidioso Brian (Celso Júnior, melhor do que nunca, maduro), prostituindo-se.


Os dois rapazes são Robbie (Rodrigo Frota), o personagem menos esboçado – talvez por ser o menos bad-boy-, mas ao qual o ator empresta uma certa vivacidade, fair-play e doçura. Mark – alter ego do autor já que tem o mesmo prenome? – vai para um reformatório se livrar da heroína e descobre que as pessos são como drogas, geram dependência. É dos três o que vai mais longe no radicalismo de sua viagem e e, talvez por isso, o ator Edward Passos, cara e jeito de bom rapaz, tenha dificuldade de encarnar o personagem, e só se redima quando mostra o seu lado terno.


ESSENCIA HUMANA - Em certos momentos, no entanto, o trio inicial não deixa de refletir a essência humana, o tribalismo que floresceu nos anos 60, 70 e até mesmo no início da década de 80: Lulu ama um dos rapazes, que ama o outro, que, por sua vez, vai se apaixonar pelo quarto elemento, o adolescente. Mas é um amor de tensões e sobressaltos, rondados, mais que nunca, pela violência, marginalidade e...ganância.


Aparece Gary, o muito moço Emiliano D´Ávila, com uma aura de inocência que lembra o Vladimir Brichta dos primeiros tempos no palco. Magnetismo a mil. Faz um michê, um garoto de programa que traz uma tara secreta, que explode espantosamente no final.


O diretor Fernando Guerreiro volta a dar um salto criativo e mostra que, quando quer, consegue estampar toda sua inquietação, que também é a nossa, transformados meio em humanos, meio máquinas. Todos partícipes e vítimas da sociedade que o pensador Jean Baudrillard chamou de simulacro. Como diz ironicamente o personagem de Celso Júnior, ensinando didaticamente aos outros:”Civilização é dinheiro. Dinheiro é civilização”.


Não à toa o cenário é um enorme conversível a dominar praticamente todo o palco, signo da tecnologia que nos corrói.


Clodoaldo Lobo

Jornal A Tarde, sábado, 05 de maio de 2007

Caderno 2

Um comentário:

Manuela Aragão disse...

ainda estou chocada.../
é um universo muito diferente do meu, mas acho super positivo discutir ele da forma séria como este grupo capitaneado por fernando guerreiro fez.
vcs estão de parabéns e VIDA LONGA A PEÇA!!!!!!!!!!!!!!
assisti ontem!!